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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

AMIGOS DOS INCÊNDIOS | PSD e CDS-PP cortaram mais de 20 milhões na defesa da floresta



O anterior governo, com Passos Coelho como primeiro-ministro e Assunção Cristas como ministra das Florestas, cortou o orçamento do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) em um quarto, entre 2011 e 2015.

O orçamento de despesa da entidade pública responsável pela gestão do património florestal do Estado e das áreas protegidas foi altamente afectado pelos cortes orçamentais do anterior governo. Entre 2011 e 2015, o orçamento caiu mais de 25%, passando de mais de 82 milhões de euros para pouco mais de 61 milhões durante esse período.

A fusão da Autoridade Florestal Nacional e do Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade em 2012, que criou o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), resultou num corte de 10 milhões de euros no seu financiamento, logo no primeiro ano completo do governo do PSD e do CDS-PP, com Passos como primeiro-ministro e Cristas como ministra da tutela.

Até à derrota eleitoral de 2015, o orçamento do ICNF foi sofrendo cortes sucessivos, perdendo outros 10 milhões de euros até ao final da legislatura. O orçamento para investimento foi o que mais sofreu a partir de 2013: nesse ano passa de 9 para 3 milhões de euros; em 2014 é praticamente obliterado, passando para 500 mil euros.

Foi a queda do anterior governo que permitiu aumentar, ainda que de forma muito insuficiente, o investimento na defesa da floresta contra incêndios e, particularmente, no funcionamento das equipas de sapadores florestais. Os cerca de 14 milhões de euros anuais reservados para a defesa da floresta contra incêndios durante os anos do PSD e do CDS-PP passaram a 32 milhões em 2016 e, no caso das equipas de sapadores florestais, o compromisso financeiro para o seu funcionamento passou de 9 para 26 milhões de euros.

Mas aqui fica também evidente a falha na concretização das medidas, já que este reforço das equipas de sapadores florestais, apesar de prevista nos plano do Fundo Florestal Permanente do ICNF de 2016 ainda não foi concretizada.

AbrilAbril

64 MAIS 42 IGUAL A 106… | Fogos, incompetência e pouca-vergonha invadiram Portugal



É fácil de somar mas é muito doloroso de sentir a amargura da perda de vidas humanas por desleixo e incompetência dos que em principio deviam servir o Estado. 

64 mais 42 totaliza 106. Para já esse é o balanço ainda provisório das vidas humanas que morreram esturricadas pelos fogos que lavraram em Portugal desde Pedrógão, em Junho, até agora, em Outubro. Pode ler aqui a última atualização, em Notícias ao Minuto: Proteção Civil confirma: Incêndios do fim de semana fizeram 42 mortos

O atual governo, com o primado de António Costa, levou com todas as culpas pelo sucedido. A oposição, CDS e PSD, eleitoralistas, procuraram fazer uma “lavagem” ao facto de terem sido governo durante décadas e nunca levarem a sério o  cadastro e ordenamento do território nem de fazerem as reformas adequadas das florestas. Nunca deitaram as mãos ao fenómeno da desertificação do território devido à migração do interior para o litoral. Muito pouco ou nada se preocuparam com o desenvolvimento do interior de Portugal e consequente fixação de indústria e demais atividades económicas que também fixassem os oriundos dessas regiões nas terras onde nasceram. Obviamente que ao PS cabe também tais responsabilidades do passado porque junto com CDS e PSD foram por décadas governo, contudo as lágrimas de crocodilo hoje vistas e as palavras ocas hoje escutadas no debate parlamentar pelos três partidos do denominado “arco da governação” não passaram de um exercício de hipocrisia, de lavar as mãos sobre a tragédia de que todos eles são responsáveis diretos e indiretos, política e moralmente. Responsáveis de facto. Indignos atores num drama que só por ser tão terrível não possui a mínima hipótese de virar por uns segundas em comédia. Por isso aqui tem o debate ou o arremedo de algo kafkiano que para além da tristeza nos carrega de mágoa, repulsa e revolta. Leia, se não conhece a “peça”: Debate: Das "desculpas" de Costa, às acusações à "ministra do eucalipto"

Entretanto a ministra da Administração Interna demitiu-se, e Costa teve de aceitar a demissão. Não se percebe a razão porque não aconteceu antes, visto que no dizer da ministra “já antes tinha manifestado ao PM Costa a intenção de se demitir”. Bem, mas para os portugueses diziam exatamente o contrário. Trapaceiros, vilões, estúpidos que ao longo dos anos ainda não perceberam que a mentira tem a perna curta – diz o povo e é verdade. Não por acaso, para uma vasta maioria de portugueses, Passos Coelho não é mais nem menos que um grande aldrabão. E agora temos Costa, com esta da ministra Constança. Ex-ministra, já. Nada fica por aqui, o secretário de Estado da Administração Interna também confirmou que está demissionário. Pudera. E agora faltam os restantes responsáveis de organismos que deviam evitar esta calamidade. Demitam-se. Proteção Civil, bombeiros, comunicações, etc, etc. Para já saem a ministra e o secretário de estado. Saiba aqui: Após ministra, secretário de Estado confirma que também está de saída

Por hoje a abordagem finda aqui. Desejamos profundamente que não nos apareçam mais notícias de mais vítimas mortais. 106, na senda assassina e destruidora dos fogos e da incompetência e abandono do Estado para com os seus cidadãos, já é demasiado e uma enorme vergonha.

Há muito tempo que está mais que provado o falhanço escandaloso dos partidos políticos integrantes do tal “Arco da Governação”, CDS, PSD, PS. Que tal memória nunca mais se apague.

MM | PG

terça-feira, 17 de outubro de 2017

IRRACIONALIDADE HUMANA!



 Martinho Júnior | Luanda  

... “Una importante especie biológica está en riesgo de desaparecer por la rápida y progresiva liquidación de sus condiciones naturales de vida: el hombre.

Ahora tomamos conciencia de este problema cuando casi es tarde para impedirlo”…

… “Cesen los egoísmos, cesen los hegemonismos, cesen la insensibilidad, la irresponsabilidad y el engaño.
Mañana será demasiado tarde para hacer lo que debimos haber hecho hace mucho tiempo”.


1- Por incrível que possa parecer a um extraterrestre recém-chegado à Terra, ainda que sábio conhecedor das infinitas linguagens da nossa Torre de Babel, o homem está hoje em unidade, com os sentidos em uníssono nas coisas que ao espaço dizem respeito em pleno século XXI, mas dilacera-se à superfície, na agónica atmosfera, como nas profundezas do subsolo, como se estivesse no século XII, ou XIII, ali onde se sente feudalmente sugado até à morte…

Será um efeito da gravidade do misterioso planeta azul que é sua casa comum?…

Mesmo que o extraterrestre conseguisse decifrar todas as linguagens e gestos humanos, ser-lhe-ia indecifrável esse comportamento do homem com os pés no chão e consciência no espaço, mesmo que percebesse muito de psicologia, de sociologia, da antropologia, de história, de economia, de finanças e até do homem voltado para a fascinação exterior…

A Terra assemelha-se de facto, com essa humanidade, neste ano da graça cristã de 2017, a uma azotada nave de loucos!...

LÍDERES EUROPEUS SEM FILHOS, SEM INTERESSES DIRETOS NO FUTURO DA EUROPA



Alberto Castro*, Londres

CURIOSO!

Phil Lawyer fez um balanço sobre os líderes da Europa

O recente eleito presidente da república francesa, Macron, não tem filhos
A Chanceler, Angela Merkel, não tem filhos
A PM do Reino Unido, Theresa May, não tem filhos
O PM de Itália, Paolo Gentiloni, não tem filhos
Mark Rutte da Holanda, não tem filhos
Stefan Lofven, da Suécia, não tem filhos
Xavier Better, do Luxemburgo, não tem filhos
Nicola Sturgeon, da Escócia, não tem filhos
Jean-Claude Juncker, Presidente da CE, não tem filhos

Portanto, um grande número de pessoas que tomam decisões sobre o futuro da Europa, não tem quaisquer interesses diretos nesse futuro!

*Alberto Castro é correspondente de Afropress em Londres e colabora em Página Global

As dores dos sobreviventes | O FOGO, A SOLIDARIEDADE E A MORTE



Manuel morreu a lutar pelo amigo enquanto, sem saber, a sua casa também ardia

O telefone tocou e Manuel saltou da casa, sem hesitar. Perderia a batalha contra as chamas. O fogo que deixou um rasto de escuridão em muitos lugares matou cinco pessoas em São Joaninho, Viseu.

Maria Helena secava as lágrimas invisíveis à conversa na berma da estrada com um homem sentado na mota, com o capacete enfiado na cabeça e a voz gasta. Santa Comba Dão, em Viseu, está como muitos lugares da região centro. As matas estão mais magras, o chão fuma e não deseja ser mais pisado, os muros das casas transformaram-se em muralhas e os troncos estão da cor da alegria da terra. Os caminhantes caminham à procura de mensageiros da fortuna. Outros lamentam-se. Maria Helena diz que foi um pesadelo. Uma vizinha até lhe pediu ajuda para tirar os animais sem vida do barracão que ardeu. Não teve coragem. Ainda não tem.

Esta zona está praticamente toda sem comunicações. Nem nos correios foi possível fazer um telefonema. Há gente no estrangeiro em sobressalto, há más notícias por dar, há alívios por aliviar. Nada. Quase nada. Quando interrompidos ou questionados sobre as coisas, que teimam descrever como "nunca visto", o tom é sempre terno, de quem prefere aproximar a afugentar. É meigo. Ou talvez derrotado. Puxa os olhos para o chão, os ombros têm menos confiança hoje, a ressaca da desgraça.

A TSF continua a percorrer aquelas estradas onde apenas as lembranças têm cor. As conversas são todas sobre o mesmo. Há prantos a dois em supermercados. Há palavras feias apontadas aos governantes. Contam-se histórias e fados, revelam-se paradeiros e os caprichos crus da morte. Percentagens de corpos queimados. Foi-se quase tudo. A terra onde as batatas luziam, as couves ganhavam músculo, os animais levavam a sua vida. Foi-se a terra da gente que fazia daquela gente a gente da terra. Quase tudo se perdeu. A esperança, outra desaparecida entre as chamas. Resta a solidariedade do povo.

O telefone de Manuel, em São Joaninho, tocou a uma qualquer hora do dia. Era um amigo, estava aflito, as chamas ameaçavam a sua habitação. Manuel não pensou muito. Saltou da cama, deixou a hesitação para outros tempos e lá foi. Esteve na luta. Não saberia que a sua casa também seria invadida pelo fogo. A ignorância salvou a casa do amigo. Mas a besta não lhe poupou a vida. Este homem perdeu a batalha, sem lutar a sua, em nome da amizade.

Graça e Eduardo, mulher e marido, cunhados de Manuel, contam a história. Entrámos por acaso no café do casal, em busca do improvável que aconteceu: ter rede no telefone para ligar para a rádio. O incêndio levou cinco pessoas de São Joaninho.

"Era muito de ajudar", conta Eduardo, com as lágrimas nos olhos, sobre Manuel. Ver um velho derrotado, com o olhar perdido no nada, a contar os trocos na mão -- talvez uma muleta para se distrair e não chorar a valer --, promove o estômago ao estatuto de ginasta de alto gabarito das olimpíadas de 1976. A voz que o acompanha há 76 anos fala baixinho. "É assim, o que é que se há de fazer?", diz e voltaria a dizer.

Graça, 70 anos, estava mais serena, mas quanto mais falava mais lhe fugia o pensamento e a realidade lhe apertava os ossos. A voz tremia. Parava. Recomeçava. Lamenta-se das cinzas que lhe ocuparam a casa de banho do estabelecimento, que agora estava com água a mais. É um desgosto. O desconforto em não querer que os forasteiros vissem o cenário diz muito desta gente.

"É triste, é triste", suspira Eduardo. "Não tem havido luz e água. Tive de ir aos correios para ligar para França para falar com o família." Foi assim que lhes contou sobre Manuel. Enquanto conversávamos, chegam familiares. Os abraços e as lágrimas ocupam o palco. Não sabem quando é o funeral. Graça quase parece sentir-se culpada por isso. "Só se vê cabos destruídos. Destruiu tudo por onde passou. Vento, fumo e chamas", conta Eduardo, enquanto a esposa imitava o som do vento, furioso. "Vruuu, vruuu".

O fogo levou gente da terra, separou famílias, juntou famílias, queimou fotografias, formas de viver e meter o pão na mesa. "Sempre tivemos muita sorte aqui. Não me lembro de nada assim", sentencia Graça. "Eu vi logo. Como isto andava, ele vinha aí..."

Ele. Outra vez, é assim que o tratam nestes lugares. Quase dá para imaginar alguém a deixar um rasto de derrota e ruínas, com o pior que os homens levam nas veias. Ele matou terras e gente. Um homem morreu a lutar pela casa do amigo, enquanto a sua também ardia. Manuel não sobreviveu para viver o desgosto. Ele levou Manuel.

Hugo Tavares da Silva | REPORTAGEM TSF | Foto: Nacho Doce/Reuters (imagem não corresponde à reportagem) | Mais fotos no original | Título PG

CHE GUEVARA | Como é ser irmão do meu irmão



Quando passam 50 anos da morte de Che Guevara na Bolívia, o Expresso falou com Juan Martín, o irmão mais novo. Para quem Che é, acima de tudo, Ernesto. Ele quebrou um silêncio de décadas e escreveu um livro para o dizer

Ser ou não ser sempre fez a diferença. E ser ou não ser irmão de Ernesto Guevara de la Serna é algo avassalador. “Cada vez sou menos Juan Martín e mais o irmão do Che Guevara”, diz ao Expresso o mais novo dos quatro irmãos do Comandante. A família manteve um silêncio de meio século antes que Juan Martín Guevara, hoje com 74 anos, acedesse a falar sobre o que se passou. Sobre quem foi, de onde veio, o que fez, o que deixou, como morreu aquele homem que tantas vezes viu chegar e partir, até um dia o ver partir de vez. Sobre a circunstância de ser irmão de um mito, de um ícone tão indiscutível quanto vilipendiado. Falar custou-lhe a reprovação seca da irmã Celia, a segunda mais velha do clã. E a oposição acentuou-se quando escreveu, com a jornalista Armelle Vincent, o livro “Mon Frère, le Che”, publicado em França e já traduzido para 11 línguas — e acabado de sair em Portugal com o título “O Meu Irmão Che” (ed. Objectiva). “Ela estava mesmo contra isso. Sabe do livro e não gosta. Não me deixou de falar, mas há coisas de que é proibido falarmos. O livro é uma delas.” As suas mais de 300 páginas são apenas “um degrau” na decisão de procurar uma compreensão de Che diferente da “imagem distorcida, mítica e distante” que as pessoas têm dele.

Durante duas horas de conversa ao telefone desde a sua casa em Buenos Aires, Juan Martín Guevara evocou o seu famoso irmão, 15 anos mais velho do que ele. Lembrou-se de Ernesto, de Ernestito, de Teté — como só na família era conhecido —, de Fuser — diminutivo de “Furibundo [furioso] Serna” —, de Chancho, até à sua derradeira transformação em Che. “Costumo dizer que sou irmão de sangue de Ernesto e companheiro de ideias do Che. Nunca, nem eu nem os meus irmãos, sentimos nisso uma carga. O que não quer dizer que sempre tenha sido fácil. Não foi”, começa ele, que foi militante político e esteve oito anos preso durante a ditadura militar argentina e que passou por situações tão contraditórias como aquela que (conta) lhe aconteceu na cadeia. Estava a ser interrogado duramente por um polícia e pensou o pior. No fim, ele apenas comentou: “Que grande homem era o teu irmão! Pena que fosse de esquerda.”

A família Guevara de la Serna era, ela mesma, um poço de contradições. Possuía nome e antecedentes aristocráticos, mas andava sempre escassa de dinheiro e havia surgido de uma transgressão — o casamento entre Ernesto Guevara Lynch e Celia de la Serna y Llosa, que ocorreu contra a vontade dos pais dela. “Essa ideia da ‘família aristocrática e oligárquica’ do Che é uma parvoíce. A oligarquia define uma posição de riqueza e de poder. E a aristocracia tem a ver com o autoritarismo familiar. Ora, se bem que o resto da família fosse abastada, nós não tínhamos nem riqueza nem poder. Pelo contrário, pela inconstância do meu pai, estávamos sempre com dificuldades económicas. E certamente não éramos condicionados pelos hábitos tradicionalistas da linhagem. A minha mãe foi uma feminista sem o ser, antes do tempo. Fumava, vestia calças, cortou o cabelo, odiava a lida da casa, fazia o que lhe apetecia. Nem sequer se punha a pensar que a podiam questionar. Quem não gostasse que fosse dar uma volta. O meu pai era manipulador e egocêntrico e ligava mais à opinião dos outros. Mas, por outro lado, tinha muita lata. Era supersticioso e fazia coisas que eram muito estranhas aos olhos dos outros”, recorda Juan Martín.

PORTUGAL | Não pode ficar tudo na mesma



Mariana Mortágua* | Jornal de Notícias | opinião

É óbvio que, depois de Pedrógão, dos relatórios entretanto conhecidos, e dos trágicos incêndios da noite de domingo, não pode ficar tudo na mesma. E a ministra da Administração Interna deve ser a primeira a reconhecê-lo. O interminável verão deste ano mostrou como o nosso país está tão impreparado para lidar com um futuro, que já é o presente, de extremos climáticos. Não são apenas os meios de combate disponíveis, é isso e tudo o resto. O planeamento florestal que não existe, e a predominância do eucaliptal; os planos municipais de defesa da floresta contra incêndios não executados ou sequer aprovados; o sistema de comunicações arcaico; a desestruturação das redes de comando da Proteção Civil; os concessionários das estradas (Ascendi), ou responsáveis pelas infraestruturas elétricas (EDP), que há décadas não cumprem as suas obrigações de limpeza de combustível florestal.

O atual Governo tem responsabilidades, mas o tiro ao alvo das culpas fáceis deixará de lado todas as outras deficiências, acumuladas ao longo de décadas, nas autarquias, na Proteção Civil, na política florestal e também nos privados. Quando tudo falha, é o Estado que falha.

No próximo dia 21 haverá um Conselho de Ministros extraordinário, marcado para analisar os incêndios de Pedrógão. O que se exige ao Governo neste momento é que faça mais que mudar nomes, e que, para além do apoio às vítimas, apresente um plano de reestruturação do próprio dispositivo nacional de combate e prevenção de incêndios.

Os relatórios que agora conhecemos, e que se somam aos que já existiam, e os técnicos que ouvimos apontam caminhos claros: um corpo profissionalizado de defesa da floresta composto por sapadores florestais e bombeiros; a inclusão de cientistas da floresta e da meteorologia nas equipas de prevenção e combate; alteração da estrutura fundiária e da composição da malha florestal, com redução da área de eucalipto e cedência mínima ao abandono; reestruturação da Proteção Civil, que deve ter cadeias de comando experientes, claras e definidas; responsabilização e apoio às autarquias nos planos de defesa da floresta; meios de apoio às populações em caso de emergência. Finalmente, e não de menor importância, regras claras para acabar com o negócio dos incêndios, dos interesses da madeira aos dispositivos de combate.

Não pode ficar tudo na mesma, e as mudanças têm de ser tão estruturais como os problemas e deficiências que as justificam. É isso que deve ser exigido ao Governo. E em tempos de discussão orçamental, é de esperar que estas escolhas tenham o seu reflexo na distribuição dos meios financeiros do Estado.

*Deputada do BE

Portugal | O INFERNO LEVOU-OS 100 DÓ NEM PIEDADE



Porque não alguns fogos postos para desgastar a “geringonça”?

Primeiro 64 pessoas foram consumidas pelo fogo na zona de Pedrógão. Entre domingo e segunda-feira mais 36 pessoas foram consumidas pelos fogos, aqui e ali, em Portugal. Soma, até agora, 100 vítimas dos fogos. Sem dó nem piedade. Sem que se vislumbre responsabilização dos que não a demonstraram e nem a praticaram. Grassou a incompetência por resultado de políticas erróneas que levaram ao abandono de uma reforma florestal e agrícola séria que preservasse os bens e as pessoas das regiões limítrofes à floresta. E assim acontece há décadas. Responsabilidades dos governos de Cavaco Silva e seguintes. Talvez até de Mário Soares quando na crista da onda chefiou os governos no pós 25 de Abril de 1974. Do salazarismo ou do caetanismo nem se fala porque na época tudo era muito diferente, nem as alterações climatéricas eram tão notadas e sentidas, nem a corrida ao abandono das terras acontecia tão gravosamente, nem havia a tal política desbragada e devastadora dos eucaliptais. Tempos de miséria e repressão que colavam as pessoas às terras onde nasciam. Ou isso ou emigrarem, para fugirem da fome e da guerra colonial.

Critica-se António Costa e o seu governo, que há dois anos exerce o cargo. E os outros, e os governos antecedentes? Não foram eles que contribuíram grandemente para esta tragédia?

E os interesses estabelecidos que lucram e enriquecem com os fogos? Quem são? Quem os investiga e os responsabiliza criminalmente justificando-se? Há ou não aviões que incendeiam a floresta? Ao longo de anos vimos tornados públicos testemunhos que afirmaram que sim. Que viram… Não se sabe que em tempos idos as investigações assim provassem. Até é muito provável que nem investigações tenham acontecido. E atualmente justifica-se algum tipo de investigação profunda sobre a origem de tantos fogos e de fogos que eclodiram à noite? Investigações para além dos casos isolados de dementes incendiários, ébrios, servos, irresponsáveis da pastorícia precisam-se.

Foram 100 pessoas que morreram, sem dó nem piedade. Provavelmente vamos chegar à conclusão que as vítimas mortais são mais de 100. Doloroso. Terrível. Revoltante. E porque não alguns fogos postos para desgastar a “geringonça”? Quem investiga a sério?

Segue-se o Expresso Curto, a cumprir a sua função. Uma peça opinativa relevante, a dar umas no cravo e outras na ferradura. Aparentemente andando e fazendo o caminho que  mais interessa a alguns (poucos) e menos aos milhões de portugueses. É o Expresso, do senhor Balsemão, um barão (entre outros) da informação, da desinformação… e  da manipulação. É ver os seus status e os feitos dos seus animais amestrados.

CT | PG

ANGOLA | Governo está completo, é hora do trabalho



Víctor Carvalho | Jornal de Angola | opinião

Com a nomeação e subsequente tomada de posse dos secretários de Estado, o Presidente João Lourenço tem, finalmente, a sua equipa governamental formada e pronta a trabalhar para responder ao desafio de melhorar o que está bem e corrigir o que está mal.

Independentemente da avaliação ou do capital de expectativa que cada nome dos elementos que integram essa equipa pode suscitar junto da opinião pública, a verdade é que será o seu desempenho prático a transmitir se as escolhas de João Lourenço foram, ou não, acertadas.

Para já, o que se pode dizer é que está criada uma enorme expectativa em redor daquilo que o próprio Presidente da República conseguirá fazer, sobretudo se tivermos em linha de conta as suas promessas eleitorais e mais algumas que depois inseriu no seu discurso de tomada de posse e que, certamente, serão reafirmadas amanhã na Assembleia Nacional.

A sociedade, onde se inclui a classe política, como não podia deixar de ser, está atenta aos mais recentes desenvolvimentos protagonizados por este Governo, não obstante o pouco tempo em que está em funções, e acredita que muitas das promessas feitas no calor da campanha serão efectivamente cumpridas.

Na sua primeira reunião, o Governo decidiu, e bem, aprovar um programa para executar nos próximos seis meses, de modo a garantir as bases onde depois ficarão sustentadas acções de empreendimento mais profundo.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O CHE E A SUA POALHA HUMANA!...


Martinho Júnior | Luanda  

O homem, esse passou como um cometa em vida, um cometa plasmado duma mensagem de liberdade milenar e a nós cidadãos do mundo, honra-nos em vida seu exemplo, sua clarividência e sua coragem, própria dum resgate de milenar dignidade e identificada com as mais justas aspirações de toda a humanidade!

1- A primeira coisa que há a avaliar quando a referência é o Che, é a exigência a cada um de nós, cidadãos do mundo: até onde e até que ponto se interiorizaram a memória e os ensinamentos essenciais do Che, de forma a transformá-los em prática?... Até que ponto ousamos sonhar face aos imensos resgates que se nos impõem, mais ainda quando o capitalismo neoliberal assola todos os obscuros rincões do mundo?...

Se em África fizéssemos uma viagem de moto, para ler ao vivo nas veias abertas do continente, provavelmente os percalços seriam ainda maiores dos que os vividos pelo Che, por que às feridas sociais que se colocavam então na América, juntar-se-iam as feridas antigas de África e as de hoje, levadas a cabo pelas portas escancaradas pelo neoliberalismo, sem qualquer visível obstrução!

Minha própria vida tem sido vivida na poalha do Che, de sua passagem por África, em especial com sua guerrilha no Congo (esse assunto inesgotável que África tarda em coerentemente decifrar), por que a IIª coluna do Che faz parte da história do MPLA e a estreita aliança de Cuba Revolucionária com Angola tem perseguido, com muitos momentos decisivos, essa poalha do Che, também interpretada pelos maiores da Luta de Libertação em África, por Amílcar Cabral, por Agostinho Neto, por Samora Machel, por Sam Nujoma, por Mugabe, por Oliver Thambo, por Nyerere, por Laurent Kabila, por Thomas Sankara…

Essa poalha tornada vida é própria até de muitos companheiros que sobreviveram ao Che e, entre eles, destaco os exemplos de Rafel Moracén e de Viktor Drecke…

POLÍTICAS DO "ARCO DA GOVERNAÇÃO" INCENDEIAM IMPUNEMENTE PORTUGAL






Mário Motta, Lisboa

O inferno voltou a emergir em Portugal, mais concretamente na região centro, novamente, para além de aqui e ali no retângulo luso. Por esta hora o balanço é de 35 mortos e mais de 50 feridos, alguns graves.

A fotografia documenta de modo dantesco o que é o inferno nas zonas mais afetadas pelos fogos. A imagem é referente a Vieira de Leiria, de autor que não conseguimos apurar mas que pela sua expressão realista foi adotada pela ONU numa das suas páginas online. Ao fundo o Pinhal de Leiria, monumento nacional que foi devastado em 80% da riqueza natural de pinheiro bravo e manso. A importância deste pinhal na contribuição da construção de naus que zarpavam rumo ao desconhecido e a que chamaram os descobrimentos foi crucial. Dos pinheiros foi fruto a madeira que navegou contra ventos, marés e tempestades dos marinheiros portugueses que deram mundos ao mundo.

Muito se diz sobre a origem dos fogos. Há relatórios a despencar após eleboração de várias entidades. Há responsabilidades que não são de agora mas de há mais de 20 anos. Estes fogos infernais são o resultado das alterações climáticas, de incendiários, da EDP (como pode ler no título a seguir), disto e daquilo, mas principalmente das políticas erradas de três partidos políticos que têm sido sempre governo interpoladamente: o CDS, o PSD, o PS. Têm sido ministros e secretários de Estado seus (arco da governação) que conduziram ao descalabro e abandono, à anarquia, a que a floresta portuguesa tem estado votada. Abandono, puro e duro. Insensibilidade. Incompetência. Medidas economicistas que também abandonaram os cuidados a ter com as populações que circulam ou residem e laboram nas redondezas das florestas.

Antes, em Pedrógão, há dois meses, o saldo foi de 64 mortos e vários feridos. Hoje o saldo é de mais 35 mortos - um bebé de um mês incluído - 99 mortos no total. E os números ainda são provisórios relativamente aos fogos de ontem e de hoje. Bem podem declarar dias de luto nacional, e conferências de imprensa. Bem pode a atual oposição parlamentar e política "ladrar" a fim de retirar dividendos. Bem pode o PS, atual governo, dizer assim e assado... que de nada vale perante os portugueses que foram literalmente esturricados e pereceram perante as labaredas incontroláveis. De nada vale o que disserem e fizerem aqueles três partidos políticos ou os seus dirigentes e militantes aduladores. O que urge fazer é repensar a defesa da floresta e das populações com os que sabem como fazê-lo, sem lugar a boys e girls das simpatias partidárias dos que foram ou atualmente são governo.

Foram os governos anteriores dos chamados partidos políticos do "arco da governação" que acenderam os fogos que consomem o país e os portugueses que tiveram mortes horríveis. Impunemente, já se sabe. Porque as culpas, o apuramento das responsabilidades com reais consequências, morre sempre solteira. Só a impunidade não arde nas chamas dos incendiários que definiram erradamente, por vezes criminosamente, as políticas a aplicar na gestão e defesa das florestas e das populações vizinhas.

A tristeza e o repúdio mora em casa dos portugueses que ainda distam alguns quilómetros do teatro das chamas que dançam macabramente por muitos hectares do país. Ainda mais tristeza, saudade, dor e revolta, invade os que perderam os seus familiares. Que importa isso se a impunidade é absoluta e até premeia os que são responsáveis por hecatombes de fogos, de pontes caídas, da corrupção e do que mais vier de mal para vitimar os cidadãos portugueses. 

E assim vai Portugal, uns quantos vão bem e muitos milhões vão mal. Estão mal, ainda mais porque acreditam em políticos que se enquadram em molduras criminosas. E votam neles, em busca das desgraças que ainda mais nos hão-de vitimar. É sempre a mesma coisa... nas escolhas, no voto, nas eleições. E daí também há responsabilidade dos eleitores, dos cidadãos.

Abram os olhos, mulas. Diziam os da antiguidade. Pois.

Pedrógão: EDP na origem das chamas e um segundo fogo fora dos registos oficiais



São as conclusões de relatório encomendado pelo Ministério da Administração Interna à Universidade de Coimbra sobre o incêndio de Pedrógão Grande.

Uma linha de média tensão da EDP esteve na origem do grande incêndio de Pedrógão Grande e um dos dois fogos que esteve na origem dessas chamas nem sequer aparece nos registos oficiais. A conclusão é do relatório encomendado pelo Ministério da Administração Interna à Universidade de Coimbra.

O documento com quase 250 páginas (que está a ser lido pela TSF) é muito critico quanto ao combate a este fogo que matou 64 pessoas. Um incêndio que segundo estes especialistas começou numa linha elétrica.

A equipa da Universidade de Coimbra garante que o incêndio mais grave daquele dia, 17 de junho, nasceu de duas ignições que terão sido causadas por contactos entre a vegetação e uma linha elétrica de média tensão. E logo aí começa o tom critico do relatório ao sublinhar que essa origem das chamas revela, desde logo, "uma deficiente gestão de combustíveis na faixa de proteção da linha, por parte da entidade gestora"a EDP.

Os especialistas são claros a dizer que as faixas de proteção da rede elétrica de média tensão EDP não estão "devidamente cuidadas" pelo que a empresa deve aumentar a fiscalização.

Outro problema grave foi o combate inicial ao fogo que afinal nasceu de duas ignições. Uma, já se sabia, em Escalos Fundeiros e outra em Regadas, sendo em Regadas que está um dos maiores mistérios deste fogo.

O relatório garante que este fogo foi "menosprezado", "tendo até à junção com o incêndio de Escalos Fundeiros, apenas um meio pesado de combate terrestre", ou seja, um camião dos bombeiros. Ainda mais estranho: o relatório garante que não há qualquer registo oficial deste incêndio que segundo os especialistas foi de grande relevância para a devastação causada em Pedrógão Grande.

"Várias entidades desconheciam mesmo que o incêndio de Regadas tivesse existido".

Nuno Guedes | TSF

sábado, 14 de outubro de 2017

A Primeira Greve Geral de Porto Alegre e o líder negro Francisco Xavier da Costa (1871-1934)


Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite* | Porto Alegre | Brasil 

Há 111 anos, em outubro de 1906, ocorreu a primeira Greve Geral em Porto Alegre, conhecida como a “Greve dos 21 dias”, que reivindicou, entre outras coisas, oito horas de trabalho. Contando em torno de 3.500 operários, estes ocuparam as ruas e praças de Porto Alegre. Uma característica desta greve foi o número expressivo de trabalhadores estrangeiros e de mulheres operárias.

O intendente (prefeito) de Porto Alegre, na época, era o engenheiro José Montaury (1858-1939), e Antônio Augusto Borges de Medeiros (1863-1961) governava o Estado. A ideia de uma paralisação se gerou entre os marmoristas, que se reuniam na Escola Eliseu Reclus, na Rua dos Andradas nº 64, sob o comando do líder anarquista Polidoro Santos (1881-1924),
  Já o grupo socialista era representado pelo líder negro, gráfico e jornalista Francisco Xavier da Costa (1871-1934) e por Carlos Cavaco (1878-1961). O primeiro criou, em 1897, o Partido Socialista Rio-Grandense, e o segundo, considerado o “verbo de fogo”, incendiou, com sua oratória, a classe trabalhadora. Ambos fundaram, em 1906, a Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS).

Além dos marmoristas, outras categorias aderiram à Greve, como carpinteiros, marceneiros, pintores, alfaiates, tecelões e estivadores. Após oito dias, a paralisação dos serviços industriais era quase total. Os comerciários aderiram quando esta se encontrava em sua fase final.ideias criativas para ganhar dinheiro
 Quanto à sua condução, os anarquistas defendiam a neutralidade e a independência política dos sindicatos, divergindo nesta questão do grupo socialista. A discussão na imprensa ocorria entre jornal anarquista A Luta, relançado, em 1906, por Polidoro  Santos e pelo gráfico José Rey Gil, e o jornal socialista, A Democracia (1905-1908), criado pelo líder Francisco Xavier da Costa. Um verdadeiro duelo de palavras ocorria entre os seus redatores.

No decorrer da Greve, Alberto Bins (1869 - 1957) - representante dos industriais – e o líder Francisco Xavier da Costa chegaram a um acordo, no qual ficou estabelecido a jornada de trabalho de nove horas. ideias criativas para ganhar dinheiro

Embora as diferenças, no campo ideológico, anarquistas e socialistas tinham objetivos, em comum, como lutar por melhores condições de trabalho, reduzir a excessiva carga horária do operário, exigir aumento salarial, além de denunciar os maus tratos sofridos pelos operários. Durante a greve, o policiamento foi ostensivo, e os piquetes tentavam impedir os chamados “fura-greves”. No dia 9 de outubro de 1906, os operários descontentes quanto à proposta, da classe patronal, de 9h diárias, decidiram permanecer em greve. Seguiram-se várias prisões…
   
Em 21 de outubro de 1906, a greve chegou ao seu término, embora os conflitos, entre operários e patrões, continuassem. Os anarquistas, por meio do jornal A Luta, denunciavam que, ao contrário do que outros jornais divulgavam, ocorriam punições e demissões, quando o operário retornava ao trabalho. As arbitrariedades, com certeza, eram resultado da ausência, na época, de uma legislação trabalhista, que garantisse os direitos dos operários. Encerrada a greve, a categoria dos marmoristas, que deu início à greve, seguiu na luta até conquistar a carga diária de oito horas.     

De acordo com o jornalista João Batista Marçal, o líder socialista Francisco Xavier da Costa se deixou envolver pelo jogo da política burguesa. Ao perder espaço, na FORGS, para os anarquistas, ele concorreu, em 1912, pelo Partido Republicano Rio-Grandense (PPR). Eleito, em 1912, com 4337 votos, foi o primeiro vereador negro de Porto Alegre.  A Greve Geral de 1906 foi um marco da luta operária em nosso Estado.

*Pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Musecom


Imagens:  
1 - Polidoro Santos  / Acervo de Isabel Bilhão  
2 Jornal anarquista A Luta de 1906  Acervo de João Batista Marçal 
3 - Líder negro Francisco Xavier da Costa e seu jornal A Democracia (1906-1908)

Bibliografia:
MARÇAL, João Batista. A Imprensa Operária do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2004.
MARÇAL João Batista; MARTINS, Mariângela.  Dicionário Ilustrado da Esquerda Gaúcha. Porto Alegre : Libretos, 2008.
SCHMIDT , Benito Bisso. De Marmore e de Flores: a Primeira Greve Geral do RS / Porto Alegre, Outubro de 1906.  Porto Alegre : Editora da UFRGS,2005.

ANGOLA | A força do Governo saído das eleições



José Ribeiro | Jornal de Angola | opinião

O Governo saído das eleições entra em funções com uma elevadíssima quota de legitimidade política para levar por diante o programa sufragado nas urnas pelo povo.


Além de marcar a primeira transição política de liderança por via democrática em Angola, o que já, só por aí, lhe dá um grande poder discursivo e argumentativo, a vitória de João Lourenço e do MPLA por maioria qualificada abre um importante espaço de manobra política para os cinco anos de mandato.

Transportando ainda o valioso legado deixado pelos antecessores, base sobre a qual assentará a acção do Executivo, o poder democrático do Governo de João Lourenço e do MPLA é vasto, no quadro, evidentemente, daquilo que são os limites comumente reconhecidos.

O Governo tem também a enorme vantagem de reunir à sua volta toda a disponbilidade e solidariedade dos quadros nacionais e das populações para começar a fazer o seu trabalho. Geralmente, nos períodos após eleições, a essa posição de esperança diante do que aí vem de positivo, se chama expectativa. Mas em Angola, por causa, talvez, do sofrimento gerado pela guerra, essa atitude é particularmente sincera. As pessoas querem trabalhar e ver as coisas a andar, seja a que preço for, pois se isso acontecer, todos terão a ganhar. Essa postura ficou bem expressa no momento da paz, quando todos os angolanos se uniram à volta do nome “Angola”, vieram trabalhar para a terra e trouxeram outros. Este é um grande capital com que contam, hoje ainda, os nossos novos governantes.

No lema eleitoral de campanha do MPLA, “Corrigir o que está mal, Melhorar o que está bem”, ficou bem vincada a manifestação de vontade e de bondade dos nossos dirigentes políticos. Mas o “slogan” faz também repousar sobre o Governo uma grande responsabilidade face aos desafios que enfrenta. Além de corrigir e melhorar o que está feito, é preciso fazer coisas novas, mostrando que não vamos ficar apenas agarrados ao passado, mas ter os olhos postos no futuro, o que exige não somente vontade política e bondade, mas também estudo e elaboração de novas políticas e medidas acertadas, algumas das quais parecerão provavelmente impopulares, mas serão importantes para a economia e as populações.

Angola | O MEMORIAL DA BATALHA DO CUITO CUANAVALE E A HISTÓRIA





Terça-feira 19 de Setembro de 2017 ficou marcada pela inauguração de um Memorial à “Batalha do Cuito Cuanavale (BCC)”, um dos símbolos que representam não só uma das principais vitórias da luta pela soberania de Angola, mas também o cumprimento de um dos legados deixados pelo primeiro Presidente da República, Agostinho Neto.

General Paulo Lara*

O primeiro Presidente de Angola, da então República Popular de Angola. Agostinho Neto foi definindo desde sempre que um dos deveres indeclináveis de solidariedade e “internacionalismo” devidos ao nosso país eram a Independência da Namíbia e o fim do apartheid na África do Sul. José Eduardo dos Santos, após oito anos como Presidente e Comandante em Chefe das FAPLA, vencedor na luta contra a invasão sul-africana, inaugurou o monumento três décadas depois.

Ao ver as imagens na televisão, surgiram-me na memória companheiros com quem compartilhei alguns momentos históricos naquele teatro operacional: Sanjar, José Pedro, Ita, Ngueto, Piricas, Mingó e Cowboy que tiveram um papel importante em diferentes fases daquele período e que hoje já não compartilham este momento.

Para a maioria do povo angolano, “cúmplice” deste sonho e que contribuiu sofridamente para a sua concretização, e sobretudo para os combatentes e para os familiares dos heróis tombados durante a longa guerra, acredito ser alentador este reconhecimento para quem, afinal de contas, estava do lado certo da história, não só na defesa do país como no combate para a libertação total do continente africano.

Moçambique: REFLORESTAMENTO FICA-SE PELAS INICIATIVAS



Florestas continuam a desaparecer em Moçambique. Apesar das iniciativas de reflorestamento iniciadas, o cenário não melhorou. Para as ONGs estão na origem disso a falta de consciencialização ambiental e a corrupção.

Quando era Presidente, Armando Guebuza criou as iniciativas "um líder, uma floresta" e "um aluno, uma planta" e deixou orientações para o seu cumprimento. O objetivo principal era incentivar as comunidades para a criação de florestas.

Mas sete anos depois, já pouco se fala desses projetos e muitos são os alunos e líderes comunitários em Moçambique que não têm uma única floresta. Um deles é Estevão Rafael Ramiro, cabo do regulado de Monapo, na província de Nampula, no norte.

"Cada líder é obrigado a ter a sua floresta, é uma lembrança e é ordem. Cada líder quando morre deve deixar o seu património, então é obrigado a ter uma floresta. Mesmo eu não tendo uma floresta, tenho que dizer aquilo que sou orientado", explicou.

O atual Governo reconhece o fracasso no cumprimento das orientações presidenciais de expansão das florestas, mas já avança soluções. Xavier Sakambuera é o diretor nacional de Florestas no Ministério da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural.

Moçambique | PURA COVARDIA



@Verdade | Editorial

A intolerância política no país continua a ganhar proporções alarmantes sob olhar indiferente das autoridades que têm o dever de colocar cobro nessa situação. A título de exemplo, o assassinato do presidente do Conselho Municipal da Cidade de Nampula, Mahumudo Amurane, representa o cúmulo da violação de liberdade de expressão e política. Amurane foi ironicamente assassinado no “Dia da Paz” em Moçambique, na sua residência particular no bairro de Namutequeliua, por um indivíduo desconhecido que disparou três tiros à queima roupa.

O assassinato do edil de Nampula representa uma enorme tragédia não só para os munícipes de Nampula, mas também para o resto do país. Amurane não era apenas um edil, mas um homem comprometido com o seu povo e a sua cidade. Amurane mostrou que é possível estar no poder para servir o povo e não aos seus interesses pessoais, como temos vindo a assistir no país. Em menos de quatro anos, ele fez de Nampula uma cidade aprazível. Transformou os espaços da urbe e devolveu a dignidade aos munícipes.

O brioso trabalho de Amurane, certamente, causou inveja a um bando de incompetentes que olha para o Estado como se de uma vaca leiteira se tratasse. Num país governado por abustres, Amurane foi assassinado por ser uma pessoa idónea, íntegra e incorruptível.

É óbvio que os mandantes de crime aproveitaram-se do desentendimento entre o edil e o seu partido, o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), para lograr os seus intentos. É demasiadamente óbvio que se tratou um acto para silenciar um indivíduo que se mostrava uma ameaça para os demais partidos políticos. Diante dessa situação, os munícipes de Nampula não pode permitir que este seja mais um assassinato sem desfecho. Os munícipes têm a responsabilidade de exigir justiça diante desse crime que representa um acto de pura covardia.

Não sejamos insensíveis como os mandantes desse bárbaro acto. Como munícipes de Nampula, olhando para o trabalho que Amurane fez, temos de ser capazes de exigir a justiça e responsabilização. Temos de ser capazes de protestar contra todos os actos bárbaros que vitima(ra)m muitos dos nossos compatriotas inocentes. Não podemos ser cúmplices de todas atrocidades cometidas contra homens honestos deste país e que pensam diferentes.

Amurane começou um projecto e não podemos deixar que os seus ideais morram. Deixemos de lado o medo, mesmo sabendo que, no momento da nossa luta contra esses bandidos que assaltaram o Estado, sejam enviadas a Unidade de Intervenção Rápida, armados até aos dentes, prontos para reprimirem, castrarem e até matarem sem dó nem piedade a todos que tiverem a ousadia de se lhes opuserem ou resistirem. Portanto, é preciso que nos lembremos de que “Somos todos Amurane”.

- Foto em Google

Fórum Luso-Asiático acusa Portugal de se ter "desligado" da comunidade portuguesa em Macau



Lisboa, 13 out (Lusa) -- O presidente do Fórum Luso-Asiático, Arnaldo Gonçalves, acusou hoje Portugal de se ter "desligado" da comunidade portuguesa em Macau desde que este deixou de ser território português.

"Portugal acompanhou as questões da China e de Macau enquanto Macau foi território português", afirmou à Lusa Arnaldo Gonçalves.

O Presidente daquela associação considera que, a partir desse momento, notou "nos vários governos e presidentes da República" um "desligamento relativamente à realidade" de Macau.

O Fórum Luso-Asiático, uma associação de cooperação e intercâmbio de Portugal com a Ásia e a China, organizou hoje uma palestra, em Lisboa, no âmbito do seu 20.º aniversário, denominada "Construir Pontes -- derrubar muros -- A relação especial Portugal/China".

Para o responsável, a postura do governo português contrasta com o interesse de outros países relativamente à região de Macau.

"Enquanto outros países começam a relação, nós temos uma de 440 anos com a China e deixamo-la fugir entre os dedos como areia", sublinhou, considerando a situação "incompreensível".

"Por um lado, Portugal está preocupado com o Brasil, e muito bem, está preocupado com a nossa comunidade em Angola e Moçambique, e muito bem, mas depois não se preocupa com Macau", referiu.

Governo timorense minoritário enfrenta na próxima semana primeiro teste no parlamento



Díli, 13 out (Lusa) - O VII Governo constitucional timorense, minoritário, enfrenta na próxima semana no Parlamento o primeiro grande teste com o debate do programa do Executivo a poder condicionar a vida no país até meados de 2018.

Um eventual chumbo do texto, para o qual são precisas duas moções de rejeição da oposição que controla 35 dos 65 lugares do Parlamento Nacional, implica a queda do Governo, que tomou posse há um mês, e abre o cenário a eventuais eleições antecipadas, condicionando o orçamento do Estado do próximo ano e a estabilidade política do país, de acordo com a legislação em vigor em Timor-Leste.

Ainda antes de receberem o documento preparado pela coligação da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin) e do Partido Democrático (PD), as restantes três forças parlamentares, Congresso Nacional da Reconstrução Timorense (CNRT), Partido Libertação Popular (PLP) e Kmanek Haburas Unidade Nacional Timor Oan (KHUNTO), constituíram-se em bloco de alternativa de governação.

Na quinta-feira, as três forças consolidaram o acordo com a assinatura de um documento sobre a "plataforma de Aliança de Maioria Parlamentar" (AMP), o que faz regressar ao país os debates de há 10 anos, quando uma coligação liderada pelo CNRT - segundo mais votado nessa altura como este ano - liderou a primeira AMP para assumir o Governo.

Após semanas de negociações, o PLP e o KHUNTO acabaram por rejeitar fazer parte da coligação do Governo e o CNRT, cujo líder Xanana Gusmão tinha rejeitado qualquer coligação e garantido que daria estabilidade ao executivo, volta a liderar uma aliança contra a Fretilin.

Violência género e grupos artes marciais são preocupações em Timor-Leste -- estudo



Díli, 13 out (Lusa) -- A violência de género e de grupos de artes marciais são os maiores focos de conflito em Timor-Leste, país que apesar de jovem é mais pacífico do que "países com muito mais experiência" democrática, segundo um relatório.

O relatório "O estado da violência na Ásia", da Asia Foundation, analisa tendências históricas e atuais em 14 nações da Ásia, entre as quais Timor-Leste, considerando que o padrão de crescimento económico e urbanização poderão levar a um aumento de conflito e violência na região.

"Intrigantemente, Timor-Leste e a Mongólia são duas democracias que são mais pacíficas do que países como muito mais experiência na governação democrática", lê-se num dos artigos de análise do estudo, assinado pelos académicos Sana Jaffrey e Dan Slater.

A violência doméstica ou de género, refere o relatório, mata mais mulheres do que conflitos armados e, por isso, "deveria ter mais atenção dos legisladores, governantes e da comunidade internacional".

Em Timor-Leste, nota o estudo, "14% de todas as mulheres entre os 15 e os 49 reportam ter sido violadas" e o país tem a segunda maior taxa de abuso infantil na região.

Em termos gerais, Díli continua a ser o local onde se registam mais incidentes violentos, com o estudo a citar dados da Belun que refere que entre 2014 e 2016 se registaram mais de mil incidentes violentos, cerca de um terço do total que ocorreram no país.

"Uma ampla gama de fatores torna Díli vulnerável ao crime e à violência urbana, incluindo a rápida migração rural para a cidade, o desemprego juvenil, o crescimento de gangues", refere o estudo.

A DESESTABILIZAÇÃO PROVOCADA À ESCALA GLOBAL PELA HEGEMONIA UNIPOLAR…



ESTÁ A NU E EM DESESPERO DE CAUSA

Martinho Júnior | Luanda  

1- Quando em 2003 no ACTUAL me abalancei a interpretar os fenómenos que atingiam o Cáucaso, a Rússia e a Geórgia, sem esgotar o assunto consegui um nível de “radiografia” que tem contribuído para chegar a conclusões mais consolidadas em função de outras situações investigadas e estudadas ao longo do tempo, de então para cá.

Já naquela altura, 2003, era possível começar-se a aperceber, com o inventário das questões que se prendiam ao Cáucaso, quanto os interesses da hegemonia unipolar, perdida a vantagem que tiveram com o tandem Gorbatchov – Ieltsin, passaram a ter muito mais dificuldades com o tandem Putin – Medvedev, a ponto de serem obrigados a passar à defensiva, perdendo paulatinamente as posições geoestratégicas no supercontinente Eurásia.

Perdido o controlo fulcral sobre a energia e o gás na Rússia, a hegemonia unipolar não possuía alternativas geoestrategicamente coerentes para melhor equacionar os seus interesses e por isso, com base nas alianças do quadro da NATO, mas também as alianças com as monarquias arábicas e Israel, entrava nas disputas em relativa desvantagem, por que em qualquer intervenção, não haviam posições em grandes espaços consolidadas.

À “civilização judaico-cristã ocidental”, em contranatura com as culturas arabizadas (e muçulmanas), faltou a capacidade para atacar a transversal de longo-curso, que liga as costas do Pacífico às costas do Atlântico, faltou uma “belt and road”, faltaram os oleodutos e gasodutos extensos seguindo em“ossatura” os paralelos e alguns meridianos, faltou um projecto ao nível das implicações transcontinentais como a nova Rota da Seda.

2- Por isso mesmo, as condutas implicadas nos expedientes da hegemonia unipolar que sob o ponto de vista geoestratégico foram remetidas à defensiva em regime de relativa desconexão e pressão, só podiam retardar a emergência multipolar por via da promoção do caos, do terrorismo e da desagregação, até por que uma parte importante dos financiamentos (e das acções), tinham que passar por crivos em Israel e nas monarquias arábicas, tendo em conta que eram estas as produtoras de petróleo e de gás à disposição dos interesses da hegemonia unipolar, como era aquela a promotora das geoestratégias (mais limitadas) a sul da Rússia e da Ásia Central, “no terreno”, conforme foi potenciado o “IASPS” (“Institute for Advanced Strategic & Political Studies”).

CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES 2



Thierry Meyssan*

Desde há 16 anos, inúmeros debates despertaram os peritos de política internacional para determinar os objectivos da estratégia norte-americana. É evidentemente mais fácil chegar a uma conclusão após este período do que no seu início. No entanto, muito poucos o fizeram e muitos persistem em defender teorias que tem sido desmentidas pelos factos. Apoiando-se nas conclusões deste debate, Thierry Meyssan alerta para a etapa seguinte prevista para os exércitos dos E.U. segundo os seus teorizadores anteriores a este período ; uma etapa que poderá ser em seguida posta em prática.

As forças que idearam e planearam a aniquilação do «Médio-Oriente Alargado» consideravam esta região como um laboratório no qual eles iam testar a sua nova estratégia. Se em 2001, compreendiam os governos dos Estados Unidos, do Reino Unido e de Israel, entretanto, elas perderam o poder político em Washington e prosseguem o seu projecto económico-militar através de corporações multinacionais privadas.

Desenvolveram a sua estratégia usando, por um lado, os trabalhos do Almirante Arthur Cebrowski e do seu assistente Thomas Barnett no Pentágono, e por outro lado de Bernard Lewis e do seu assistente Samuel Huntington no Conselho de Segurança Nacional [1].

O seu objectivo é, ao mesmo tempo, adaptar o seu domínio às evoluções técnicas e económicas contemporâneas e de o estender aos países do antigo bloco soviético. No passado, Washington controlava a economia mundial através do mercado global da energia. Para o conseguir, impunha o dólar como moeda para todos os contratos de petróleo, ameaçando com a guerra qualquer contraventor. No entanto, este sistema não podia durar a partir da substituição parcial pelo gás russo, iraniano, catariano —e, em breve, sírio — do petróleo.

O pós-capitalismo particular de Mahatma Gandhi



Previu os desastres da alienação do trabalho, do consumismo, do maltrato aos animais. Defendeu uma vida frugal para todos e uma nova democracia, com controle social

Débora Nunes* | Outras Palavras

Há uma bela viagem a fazer com Mahatma Gandhi: acompanhá-lo em sua crítica ao capitalismo e sua proposta de uma sociedade pós-capitalista, a partir da evolução da consciência humana. Nem que seja uma viagem bem curta, apenas à sua premonitória visão ecológica sobre os desastres que o capitalismo promoveria, por ter sido feita no início do século 20, antes da existência da sociedade consumista de massas.  Quem me conduziu anos atrás nessa viagem foi o professor Jeevan Kumar, que dirigiu por muitos anos o Centro de Estudos Gandhianos vinculado à Universidade de Bangalore (Índia), onde fiz o meu pós-doutorado.  É com Jeevan que saímos juntos para essa viagem breve.

Em sua visão integral acerca do desenvolvimento da teia da vida, Gandhi afirmava, tendo em vista o capitalismo: “uma sociedade em que os trabalhadores são tratados como máquinas, em que os animais são explorados cruelmente nas fazendas industriais e em que a atividade econômica leva à devastação da natureza não pode ser concebida como uma civilização”.

Portugal | CONHECIDOS E DESCONHECIDOS NA OPERAÇÃO MARQUÊS



Francisco Louça | Público | opinião

Donald Rumsfeld, um assanhado falcão que foi ministro dos EUA durante as suas recentes guerras mesopotâmicas, celebrizou-se por poucas coisas. Era um homem de negócios, a sua empresa foi das grandes beneficiárias da guerra, a ocupação do Iraque foi uma bênção para o terrorismo e uma maldição para os árabes, não é fácil encontrar alguma coisa que o recomende. Mas pelo menos dizia ao que vinha.

Talvez por isso os participantes na cimeira da NATO de 2002 possam ter sido surpreendidos pela sua triste declaração:«A mensagem a transmitir é que não há “conhecidos”. Há coisas que sabemos que sabemos. Há desconhecidos conhecidos. Isto é, há coisas que agora sabemos que não sabemos. Mas também há desconhecidos que desconhecemos. Há coisas que não sabemos que não sabemos.» De um chefe de guerra que conduz as tropas, mesmo que à confortável distância de um ecrã de videojogo, esperava-se certamente mais garbo. Mas as coisas são como são e Rumsfeld ficou-se por esta charada, só há “desconhecidos conhecidos” e “desconhecidos desconhecidos”, seja lá o que isso for.

Pois o caso da Operação Marquês contra José Sócrates, que agora chegou à acusação, prova que Rumsfeld não viu o filme todo: também há outra classe que ele esqueceu, a dos “conhecidos desconhecidos”. Um conhecido desconhecido é um ser bizarro, que está à nossa frente e não sabemos bem o que seja. Tem cheiro e cor, mas ao que vem, isso é desconhecido. O caso Marquês é esse bicho. O processo jurídico, o nosso conhecido (afinal já leva quatro anos de fugas de informação para o Correio da Manhã), se é alguma coisa pela certa, é só uma ponta do iceberg, esse sim menos conhecido, das relações entre política e negócios.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

PORTUGAL | “Não há argumentos para que não se aumente já em Janeiro” - Rita Rato



A abstenção do PS não foi suficiente para que as propostas de aumento do salário mínimo para 600 euros em Janeiro fossem aprovadas. Rita Rato lembrou que «cabe ao Governo e não à concertação social» a fixação do valor.

Os três projectos de resolução que foram hoje levados a votação no plenário da Assembleia da República recomendando o aumento do salário mínimo nacional para 600 euros em Janeiro, por iniciativa do PCP e do PEV, foram chumbados com o voto contra do PSD, do CDS-PP e do deputado do PS Paulo Trigo Pereira.

A iniciativa do PAN, que recomendava a negociação do aumento para 600 euros na concertação social, foi votado de forma idêntica, à excepção do CDS-PP, que se absteve.

A deputada Rita Rato, que apresentou o projecto do PCP, lembrou que a decisão de aumentar o salário mínimo é competência do Executivo e não da concertação social, e acrescentou: «Sempre que foi para cortar direitos foi nesta Assembleia que se decidiu.»

O PCP vem reivindicando o aumento do salário mínimo nacional para 600 euros desde 2015.

O deputado José Soeiro defendeu o ritmo de crescimento mais moderado face ao que o BE propôs na campanha eleitoral de 2015, quando exigia um aumento para 600 euros logo no ano seguinte. «O BE exigiu que ficasse escrito no acordo com o PS que o salário mínimo chegaria aos 600 euros até ao final da legislatura e que aumentaria 5% ao ano», afirmou. A aplicação do acordo entre o PS e o BE significa que neste ano o salário mínimo se fica pelos 557 euros e, seguindo o mesmo ritmo, não ultrapassará os 580 euros em 2018.

Apesar de o seu partido ter assumido o aumento do salário mínimo para 600 euros como uma das suas «maiores preocupações» em Setembro de 2015, Catarina Martins acabou por afirmar, em entrevista ao DN dois meses depois, que «seria demagógica se dissesse que acredito que seria possível ter 600 euros em 2016, não é possível».

O Governo do PS tem escolhido negociar na concertação social os aumentos do salário mínimo, usando como referência os valores acordados com o BE. O PSD e o CDS-PP recorrem a esse mesmo argumento para justificar a oposição, escusando-se assim a assumir se estão ou não de acordo com a subida para os 600 euros já em Janeiro.